Zen Ciclismo – a bicicleta como caminho: livro propõe uma nova leitura do ciclismo urbano como experiência existencial e articula mobilidade, filosofia zen e vida contemporânea em narrativa que mistura memória, reflexão e história. 

Um olhar sensível e profundo sobre o ato de pedalar é o ponto de partida do livro “Zen Ciclismo – a bicicleta como caminho”, do escritor argentino Juan Carlos Kreimer, publicado pela Gryphus Editora. Entre memórias pessoais, reflexões filosóficas e contextualização histórica, a obra apresenta o ciclismo como uma experiência que conecta corpo, mente e cidade — aproximando práticas cotidianas de estados de consciência associados à meditação e convidando o leitor a repensar não apenas a mobilidade, mas sua própria forma de estar no mundo. A caprichada edição em português, traz prefácio assinado pelo jornalista Fernando Gabeira.

Amigos desde os anos 80 e militantes das causas ambientais, Gabeira e Juan não se viam e nem se falavam desde essa época. A editora Gisela Zincone foi responsável pela reaproximação, convidando Gabeira para escrever o prefácio do livro. O texto acabou virando uma troca de cartas entre os dois. “Creio que todos os ciclistas que desfrutam dessa simples e rica experiência vão gostar do livro de Juan Carlos e se reconhecer não apenas na história das bicicletas mas nos estados de espírito que elas inspiram”, escreveu Gabeira. No que Juan devolveu: “Fernando, meu querido amigo, obrigado pelas suas palavras. Elas são tão precisas e claras, transmitindo diretamente a sensação que se tem ao pedalar ao lado de um companheiro de viagem“. 

A narrativa se inicia a partir de uma cena simples: um ciclista à beira do Rio de la Plata, na Argentina, revisita mentalmente o trajeto percorrido, mas percebe não lembrar dos próprios pensamentos. A partir desse episódio, o texto introduz a ideia de “atenção plena em movimento”, sugerindo que pedalar pode representar um estado de absorção total — próximo ao que tradições orientais descrevem como presença.

Ao longo da obra, o autor estabelece paralelos entre o ciclismo e o zen, defendendo que tanto pedalar quanto meditar funcionam como processos de “depuração mental”. Nesse sentido, a bicicleta deixa de ser apenas um meio de transporte para se tornar uma extensão do corpo e um instrumento de autoconhecimento, capaz de promover alinhamento entre dimensões físicas e subjetivas. 

A partir de uma escrita que transita entre ensaio, relato e reflexão filosófica, o livro apresenta o ciclismo como uma experiência que ultrapassa o deslocamento físico e se insere no campo da consciência e da presença. Para além da dimensão filosófica, o livro também traça um panorama histórico da bicicleta, desde a invenção da roda até os modelos contemporâneos. 

Inspirado por tradições orientais, o autor introduz noções como zanshin (consciência contínua), hara (centro energético do corpo) e wu wei (ação sem esforço), propondo uma leitura do ciclismo como prática meditativa em movimento. Nesse contexto, pedalar torna-se uma forma de atenção plena: um estado em que o sujeito age sem excesso, responde ao ambiente com naturalidade e reduz interferências desnecessárias — físicas e mentais. A obra também investiga a ideia de fluxo vital, presente em diferentes culturas sob nomes como chi, ki ou prana, e sua relação com o movimento do corpo.

Mais do que uma abordagem filosófica, o texto incorpora uma dimensão prática ao detalhar aspectos técnicos do ciclismo urbano — como postura, cadência, uso do assento, posição das mãos e dinâmica do pedalar. Esses elementos, no entanto, são apresentados não como regras rígidas, mas como extensões de uma mesma lógica: minimizar tensões, eliminar excessos e permitir que o movimento aconteça com naturalidade. 

No plano coletivo, o livro também se conecta ao universo do cicloativismo e das práticas urbanas sustentáveis, ainda que de forma indireta. Ao propor uma relação mais consciente com o espaço, o tempo e o outro, a obra sugere que transformações estruturais nas cidades passam, também, por mudanças subjetivas na forma como os indivíduos se deslocam e se percebem. 

A obra ainda aborda o crescimento do ciclismo urbano no século XXI, destacando seu papel estratégico nas discussões sobre sustentabilidade e planejamento das cidades. Ao analisar o avanço de ciclovias, políticas públicas e mudanças culturais, o texto sugere que a bicicleta se consolida como alternativa viável aos modelos tradicionais de transporte, ao mesmo tempo em que promove uma reconfiguração das relações sociais no espaço urbano. 

Combinando ensaio filosófico, relato pessoal e observação técnica, o livro constrói uma ponte entre mobilidade, espiritualidade e experiência cotidiana. Mais do que uma reflexão sobre o ciclismo, trata-se de uma investigação sobre presença, equilíbrio e pertencimento em um mundo marcado pela aceleração e pela desconexão. Ao final, a proposta é simples — e radical: pedalar não para chegar a algum lugar, mas para habitar o caminho. 


Juan Carlos Kreimer nasceu em Buenos Aires em 1944. Trabalha com jornalismo cultural, escreve e edita. Seus livros de rock foram os primeiros a serem publicados em espanhol: Beatles & Co (1968), Agarrate! (1970), Punk la muerte joven (1978). Em 1982, fundou a revista Uno Mismo, que dirigiu durante doze anos. É autor de ¿Cómo lo escribo? (1981), Contracultura para principiantes, El varón sagrado, Rehacerse hombres e de três romances: Todos lo sabíamos, El río y el mar e ¿Quién lo hará posible? Adaptou para graphic novels Los dueños de la tierra, de David Viñas, e El extranjero, de Albert Camus. Desde 1995, dirige as séries Para Principiantes (Era Naciente) e Novela Gráfica (De La Flor). 

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Publicado por:Philos

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